Setembro Amarelo: O papel da liderança humanizada

As cicatrizes da pandemia seguem expostas impulsionando uma crise de saúde mental sem precedentes e que atinge tanto as pessoas quanto os negócios. 
 
A crise da saúde mental é um fenômeno global. Os relatórios “World mental health today” e “Mental Health Atlas 2024” da OMS, destacam que transtornos de ansiedade e depressivos são os tipos mais comuns em todos os países, afetando pessoas de todas as idades e níveis de renda. Embora a prevalência possa variar por sexo, as mulheres são desproporcionalmente mais afetadas no geral, um dado que se alinha perfeitamente com a realidade brasileira e as múltiplas jornadas de trabalho. Se fizermos um recorte for por suicídios, chegamos à média estimada de 800 mil pessoas que morrem por suicídio anualmente – uma morte a cada 40 segundos – com 75% desses casos em países de renda média e baixa. 

No Brasil, já temos o maior número de afastamentos por ansiedade e depressão em 10 anos. Só em 2024, foram quase meio milhão de licenças médicas concedidas por transtornos mentais, um aumento de 68% em relação ao ano anterior. Para se ter ideia do tamanho desta crise, vale citar o dado de apenas um dos principais impactos econômicos, que foi o custo estimado em quase R$ 3 bilhões, apenas em benefícios, no ano de 2024. (Ministério da Previdência Social e G1, 2025

Fonte: Matéria G1, 2025

Os benefícios por incapacidade temporária associados à saúde mental no trabalho mais do que dobraram no último biênio, passando de 201 mil em 2022 para 472 mil em 2024, um aumento de 134%. Entre os casos, destacam-se: Afastamentos acidentários por reações ao estresse (28,6%), Ansiedade (27,4%), episódios depressivos (25,1%) e depressão recorrente (8.46%). (Série Smartlab, OIT e MPT, 2025). 

Especialistas costumam atribuir a crise às “cicatrizes da pandemia”, em que a sociedade precisou mergulhar em luto, estresse emocional, isolamento, insegurança financeira e o fim de ciclos pessoais, o que deixou marcas profundas na forma em que vivíamos. A melhor forma de traduzir isto é como se a vida tivesse voltado ao normal, mas de uma forma diferente que exige um ritmo acelerado e na qual as estruturas psíquica e física de grande parte das pessoas não consegue suportar. 

“Mais do que nunca é preciso mostrar às pessoas seu valor para os negócios e comunicar-se claramente, criando uma conexão capaz de impulsionar o desenvolvimento das pessoas e minar a insegurança.” Deusa Marcon, Co-fundadora da Recíproka. 

A maioria dos afetados é mulher, com idade média de 41 anos, predominantemente com quadros de ansiedade e depressão, o que reflete a sobrecarga de trabalho, menor remuneração e a responsabilidade do cuidado familiar.  
Neste contexto vale reforçar que as mulheres são maioria na liderança das famílias e que, de cada grupo de 100 lares brasileiros, 52 são chefiados por mulheres. (IBGE e FGV, 2025).  
 

Um novo fator de estresse: O medo da Inteligência Artificial 

O cenário de adoecimento vai além de questões individuais, ao tornar-se sintoma de ambientes de trabalho com jornadas extensas, metas excessivas, assédio moral, ausência de suporte e falta de autonomia, entre outras características que ampliam o fator de risco psicossocial que culminam em uma espécie de esgotamento social. 

Para além de todos estes fatores nada leves nos ambientes de trabalho, agora as pessoas também precisam lidar com a crescente preocupação de serem substituídas pela Inteligência Artificial (IA). 17% dos brasileiros temem ser substituídos pela IA em seus empregos, enquanto 27% acreditam que a tecnologia está evoluindo rápido demais. (Pesquisa NordVPN, Homework, 2025)

Esse temor não é irracional, mas sim um reflexo de um processo de mudança real e muito rápido, que gera ansiedade e insegurança sobre o futuro das profissões. E as empresas acabam contribuindo para esse cenário, a partir do momento em que não priorizam o pensamento de futuro da organização ou quando não praticam uma comunicação clara e efetiva com seus colaboradores. Não basta apenas o discurso de que a IA vai facilitar e trabalhar junto e não contra as pessoas, é preciso tangibilizar em ação, mostrando como isso pode se dar e apresentando o passo-a-passo para desbravar essa nova realidade.  
Enquanto as pessoas sentirem-se questionadas sobre seu valor e relevância no trabalho, estaremos, como sociedade e liderança, contribuindo significativamente para o aumento dos quadros de ansiedade e depressão que impactam no bem-estar mental dos times. 

A resposta regulatória: A NR-1 e a gestão dos riscos psicossociais 

Diante da gravidade da crise, os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho foram incluídos no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Essa atualização significa que as organizações devem passar a avaliar e controlar todos os perigos e riscos existentes, incluindo aqueles decorrentes de fatores como sobrecarga de trabalho e assédio, integrando-os ao inventário de riscos. (Portaria MTE nº 1.419, de 27 de agosto de 2024, cap. 1.5 da Norma Regulamentadora nº 1, NR-1). 

É importante reforçar que a avaliação desses riscos significa analisar as condições de trabalho às quais o trabalhador está submetido. A norma busca identificar perigos decorrentes de problemas na concepção, na organização e na gestão do trabalho, que possam gerar efeitos na saúde do trabalhador em nível psicológico, físico e social. As  multas podem ir de R$ 500 a R$ 6 mil e a priorização de fiscalização deve ser por setores com alto índice de adoecimento mental, como teleatendimento, bancos e estabelecimentos de saúde. 

Porque as organizações devem priorizar a liderança humanizada 

A liderança humanizada é um estilo de gestão que coloca o bem-estar, a empatia e o desenvolvimento dos colaboradores como prioridade, auxiliando na criação de um ambiente de trabalho colaborativo e engajador, que, ao mesmo tempo em que valoriza as pessoas, busca resultados sustentáveis. Esse modelo se contrapõe à gestão puramente técnica ou autoritária, focando no ser humano que está por detrás da função, e não apenas enxergando-o como um recurso produtivo. 

Em seu livro “O coração do negócio”, Hubert Joly conta como resgatou a Best Buy com a liderança humanizada, abrindo um caminho por compartilhar experiências significativas e articular a conexão com o propósito da companhia, que fomentaram um sentido coletivo dentro da organização e estabeleceram um ambiente fértil e educativo para que as pessoas identificassem seu propósito e sinalizassem que isto era algo importante.   

“É preciso internalizar que o investimento em saúde é um ganha-ganha para as pessoas, para as famílias, para as empresas e a sociedade como um todo. Vinícius Pinheiro, diretor do escritório da OIT para o Brasil. 

O RH tem um papel estratégico em não apenas responder de acordo com as novas normas regulatórias, mas também de desenvolver uma liderança humanizada e capaz de acolher, escutar e trazer clareza, transformando a IA em uma ferramenta de potencialização, e não de substituição, para que os talentos sejam retidos e as culturas organizacionais se tornem mais resilientes. 
 

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Escrito por Recíproka Estratégia.